inversão dos sentidos
Um dia encontrei um cara com quem eu nem simpatizava muito. Estava educada no dia e disse cordialidades de quem sempre se encontra na noite. Com as amigas, estava prestes a ir embora, mas ele relutou: reivindicou que ficássemos um pouco mais e tomássemos uma cerveja. Resolvemos esperar e rachar uma gelada. Ele não deixou. Pagou cerveja pra nós três, conversamos mais um tempo e fomos embora. Ele não queria pegar ninguém, tem namorada, até. Foi só educado, gentil, respondeu à gentileza que nós usamos ao falar com ele e aceitar o convite.
Outro dia estava com colegas de profissão e descobri um medo paralisante. Tinha que atravessar uma ponte por onde há uma década passava o trem. Exposto ao bel-prazer do tempo, a ponte tinha vãos enormes no trilho e nenhum apoio. Travei e quanto mais eu tentava dar um passo, menos conseguia me mexer. Fui salva por um co-colega de trabalho, que me pegou pelo braço e me fez conversar com ele para me distrair. Na volta, o co-colega teve que retornar antes. Todo mundo atravessou. Eu não consegui. Diante da certeza que eu não tinha escolha, pisei sozinha na ponte, tentando me concentrar em calcular as distâncias certas. Minhas pernas tremiam tanto que eu pisei na ripa certa de madeira, mas me desequilibrei e quase caí. O sol não perdoava e eu senti que ia chorar. Olhei para frente e dois colegas de profissão, cada um no seu gênero, comprovaram que não interessa se você é homem ou mulher se não honra o que tem no meio das pernas. Eles riam e me pediam pra olhar pra foto. Eles riam. E riam. E quando aquela ponte terminou, eles continuavam rindo e eu mal conseguia andar.
E é aí que você descobre que conhece filhos da puta demais nesse mundo.
… mas também tem gente só esperando pra ver seus dentes e se aproximar.
candy says
e tem essa cabeça que não pára de pensar e esse universo de trivialidades que ganham uma beleza e quase uma resposta, uma compensação, como se o mundo te devolvesse, te dissesse “ó, respira, eu te ofereço esse em troca dessa dor”. não tem nada que dói que não pareça lamento, e não é lamento, é só aquela dança em um salão vazio, aquela dança depois que a agulha não arranha mais os vincos do disco.
e tem essa cabeça que tanto pensa e mal sabe se expressar e quase sempre que abre a boca deixa essa nuvens de equívocos (ou chuva de monólogos); leminski, sempre tu, que perdeu os dentes, mas jamais deixou de morder.
então, no emaranhado desse imenso baú de idéias com acento e sem assento, tem um fio que se desenrola em um único sentido:
compartilhar.
Candy says
I’ve come to hate my body
and all that it requires in this world
Candy says
I’d like to know completely
what others so discreetly talk about
I’m gonna watch the blue birds fly over my shoulder
I’m gonna watch them pass me by
Maybe baby when I’m older
What do you think I’d see
If I could walk away from me
Candy says
I hate the quiet places
that cause the smallest taste of what will be
Candy says
I hate the big decisions
that cause endless revisions in my mind
I’m gonna watch the blue birds fly over my shoulder
I’m gonna watch them pass me by
Maybe when I’m older
What do you think I’d see
If I could walk away from me…
despedida
Ela me olhou e disse: fica linda e se divirta o que puder, que com o tempo, a vida vai tirando a alegria da gente.
Chorei pra sempre.
on my own feet
ela vai voltar pra casa. vai ignorar o medo dos fantasmas e exorcizar de vez o fim. se despedir da saudades e acomodar tudo em caixinhas para guardar no fundo do armário.
depois de tanto tempo, ela vai voltar pra casa. vai voltar para os planos que nunca vai cumprir e para dietas que nunca vai terminar.
ela vai voltar pra casa. para a guerra contra as aranhas e a convivência com silêncio. ela vai voltar, só não decidiu se o começo ou o fim do exílio.
dialogue
- no, thank`s.
- come on…
- no, really, i don’t do drugs. i just wanna be around… u.
- what you mean? don’t do drugs… pff…
- i don’t.
- and all that madness?
- is some enventually sadness or anger
- and today?
- i’m in love. well, maybe i do some drug…
só lá fora chove
um domingo de folga, umas pilhas de jornais. a persiana aberta e de onde eu olho vejo o céu chuvoso entre os prédios que lá longe quase barram minha visão. vejo as palmeiras em torno do córrego e a hortinha dos militares aqui de frente fica especialmente verde em dias assim. ontem perguntei a alguém se elas sobrevivem a tantos dias alagados. ninguém soube dizer.
mais um pouco e sai o café de depois de depois do almoço e o domingo ganha um cotorno que tem cheiro, tem gosto e logo ganha textura. melhor, só se os pés tivessem meias e se essa cadeira fosse a preta velhinha que tenho em casa. ah, minha casa. um lugar tão abandonado quanto os planos que fiz antes de entrar. mas se eu sigo me lavando e renovando, com ela vai acontecer o mesmo tão logo.
com café, a pilha de jornais, uma imensa lista de feeds, 2gb de fotos para triagem, umas lembranças sempre presentes, o domingo só me deixa um pergunta preguiçosa: por que mesmo eu não gostava de domingos? porque eu não os conhecia, de certo.
cambia, todo cambia
clube do balanço, céu, elvis costello, mercedes sosa, cafeína e fé na estrada pra encarar o domingo de sol na redação. sei nem porque, mas fui tomada pelo bom-humor (que preocupante! haha). o grande lance é que a vida está lá fora e o caminho se abre quando você anda.
quando o coração é grande, o sorriso brilha.



